| abstract
| - Há tempo, Doroteu, que não prossigo Do nosso Fanfarrão a longa história. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Que não busque cobrí-los com tal capa, Que inda se persuada que os maís homens Lh'os ficam respeitando, como acertos . Enquanto ao conhecer destes despejos, Pespega à lei a boa inteligência, Que extensiva se chama. Sim, entende Que aonde o rei ordena que só haja Recurso a ele mesmo, nos faculta Recurso aos generais, pois que estes fazem, Em tudo, e mais que em tudo, as suas vezes. Ah! dize, meu amigo, se podia Dar-lhe outra inteligência o mesmo Acúrsio . Esse grande doutor, que já nos finge, Nos princípios de Roma, conhecida A Divina Trindade, e que pondera Que do cão, que na palha está deitado, A velha fúria, lei se diz canina. Maldito, Doroteu, maldito seja O pai de Fanfarrão, que deu ao mundo, Ao mundo literário tanta perda, Criando ao hábil filho numa corte, Qual morgado, que habita em pobre aldeia! Ah ! se ele, doce amigo, assim discorre, Sabendo apenas ler redonda letra, Que abismo não seria, se soubesse Verter o breviário em tosca prosa. Se entrasse em Salamanca, e ali ouvisse Explicar a questão daquela escrava Que foi manumetida em testamento, Se três filhos parisse, e outras muitas Que os lentes nos ensinam, desta casta ! Enquanto, Doroteu, ao outro ponto De julgar aos expulsos inocentes, Também razão lhe dou, porque, primeiro Se informa com aqueles, que os réus dizem Que sabem, mais que todos, do seu caso. Nem é de presumir que estes lhe faltem A verdade, jurando, pois têm alma. Sê boa testemunha, meu paizinho A quem o vulgo chama Pé-de-Pato. Confessa se não foste o que juraste Que deste uma denúncia e fora falsa. Indigno e bruto chefe, em que direito Entendes que se firmam tais processos ? Um réu, a quem condena um magistrado, Pode mostrar o injusto da sentença Dando umas testemunhas que juraram Sem haver citação da sua parte ? Dando umas testemunhas inquiridas Por juiz que não pode perguntá-las ? E como, louco chefe, e como sabes Que a defesa convence, se nem viste Os autos, em que a culpa está formada ? Suponho que juraram novamente Aqueles mesmos que as denúncias deram: O segundo e contrário juramento Não é que se reputa, sempre, o falso ? E quem chega a comprar um grande chefe Não pode inda melhor comprar um negro ? Amigo Doroteu, estes pretextos São como as bigodeiras, que não podem Fazer se não conheçam as pessoas, Que dançam nos teatros por dinheiro. Não lucra, doce amigo, o nosso chefe Somente em revogar os extermínios Que fazem os ministros: ele mesmo Ordena se despejem os ricaços, Ainda que estes vivam sem suspeita Do infame contrabando. Desta sorte Os obriga, também, a vir à tenda Comprar, por grossas barras, seus despachos. Todos largam, enfim, e todos entram No vedado distrito, sem que importe Haver ou não haver de crime indicio. Só tu, meu Josefino, sô tu ficas No mandado desterro, por teimares Em não querer largar, ao vil Matúsio, Uns tantos mil cruzados, que pedia. Só tu... porem, amigo, é tempo, é tempo De fechar esta carta, pois, ainda Que a matéria, por nova, te deleite, A muita difusão também enfada. Eu a pena deponho, e só te peço Que tomes a lição, que te apresenta O nosso Fanfarrão, no seu mulato. Não desfaças, amigo, as ruças becas. Vai-as distribuindo aos teus lacaios, Bem como faz o chefe às suas fardas, Que, enquanto estes as rompem, poupam As librés amarelas asseadas.
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